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[:pb]Do “combate à seca” ao paradigma da convivência com o Semiárido[:]

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Inovar primeiramente o modo de perceber. Esse é o âmago do paradigma da convivência com o Semiárido: superar o imaginário limitado de um lugar escasso de possibilidades de garantir a manutenção da vida, a produção de alimentos e condições dignas de desenvolvimento.

preparação de terra

A histórica representação do Semiárido como um lugar onde reina a pobreza e a miséria em função da seca constituiu um arcabouço negativo de políticas, inevitavelmente, encontraram impedimentos de naturezas diversas, para se consolidarem como medidas continuadas, sustentáveis e promissoras de garantir às populações urbanas e rurais a certeza de que vale a pena permanecer nas regiões onde reina o Semiárido. [1]

A Rede Solivida conta com entidades que se preocupam em explorar novas concepções e modos do humano se relacionar de forma mais holística com o Semiárido, reconhecendo seu valor e inteligência, tirando proveito de suas potencialidades e contornando suas limitações com planejamento e respeito a esse que é mais uma bela expressão da biodiversidade brasileira.

 

Organização comunitária e criação de reservatórios de água no interior da Bahia

Apesar de muito famosa por seu rico e extenso litoral, a Bahia tem 69,7% de sua área caracterizada como semiárida. Dentro dessa conjuntura a cidade de Campo Formoso, que fica a 401 km da capital Salvador, tem cerca de dois terços de sua área ocupada pelo semiárido, vegetação nativa caracterizada pela caatinga, e o restante, em áreas mais elevadas, há vestígios de matas e vegetações típicas de grotas.

Danos ambientais da mineração – ilcebergs que desaparecem em pouco tempo

Por apresentar imprevisibilidades pluviométricas características do semiárido nordestino, a cidade tem um excelente aliado, a Associação de Líderes Comunitários – LiderAção que, atuando há mais de 20 anos, realiza um trabalho de luta pela água. Antes mesmo de sua institucionalização, o a LiderAção atuou perfurando poços artesianos e  depois passou ao trabalho com a implantação de cisternas.

Atualmente, o trabalho desenvolvido pela LiderAção se dá através de uma participação ativa na Comissão Municipal da Água responsável pela escolha de comunidades, acompanhamento na construção de cisternas e outras tecnologias de captação de água na zona rural de Campo Formoso, bem como na  formação de lideranças para convivência com o semiárido, além de orientação e formação de associações rurais.

Segundo Andra Keila, conselheira da Lideração e especializada na abordagem do paradigma da convivência com o semiárido, as maiores dificuldades enfrentadas estão no que diz respeito à conscientização da riqueza do semiárido: “nós buscamos desconstruir a ideia que o semiárido é ruim, seco e subdesenvolvido. Tentamos fazer com que as pessoas que vivem na zona rural tenham interesse em permanecer no campo”.

Até o momento, a instituição já auxiliou 5 mil famílias na construção de cisternas e aproximadamente 100 famílias de mais de 15 comunidades através da formação de convivência com o semiárido. Durante suas ações, a LiderAção construiu cisternas de consumo e de produção, barreiros de trincheira, implantou quintais produtivos, desenvolveu oficinas de técnicas de plantio, organização comunitária e análise da conjuntura sócio-política, sempre presente nas comunidades por meio de visitas de assessoria técnica.

 

Reforma agrária e agroecologia pelo fortalecimento da convivência com o Semiárido

          Em entrevista com a Comissão Pastoral da Terra que atua na Paraíba, podemos perceber alguns avanços e impasses no que tange à difusão de um novo modo de conceber a vida e o trabalho no Semiárido.

  1. Sabemos que a Paraíba tem 86% de sua área caracterizada como semiárida, segundo o site da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), na sua perspectiva, qual a importância do trabalho desenvolvido nestas áreas?

CPT Paraíba – A Paraíba, além de ter a maior parte do seu território no Semiárido, se encontra com 76,4% do seu território em processo de desertificação (dados do INSA). Bom dizer também que que nem todo semiárido está na Caatinga, assim como os processos de desertificação, que atingem áreas de Mata Atlântica, por serem regiões de monocultivos, provocadores de desertificação em todo o mundo. Desde 2003, estamos articulados a ASA/PB e junto com as várias organizações temos desenvolvido ações que colaboraram para construção de um outro paradigma para o Semiárido, o paradigma da Convivência, em contraposição com a lógica de “combate à seca”. A importância dos trabalhos na região semiárida, tem sido construir processos de convivência e consciência dos saberes desenvolvidos ao longo dos anos pelas populações que ali residem e que muito tem a ensinar hoje para o mundo degradado pelos excessos no uso da biodiversidade, especialmente nos processos de escassez de água. É importante também, por construir uma outro olhar, diferente daquele difundido pela mídia hegemônica,valorizando os saberes, a diversidade na produção e reprodução das vidas.

 

  1. De acordo com a realidade da sua organização, como vocês desenvolvem hoje o trabalho nas áreas de semiáridos?

CPT Paraíba – A CPT na Diocese de Campina Grande, trabalha na diagonal com menor índice pluviométrico do Estado, Cariris e Curimataú, além do Agreste da Borborema. Nosso trabalho, de acompanhamento a luta pela terra e por uma efetiva Reforma Agrária, tem colaborado com a partilha da terra e também com a ampliação e fortalecimento da Agricultura Familiar Camponesa de base agroecológica, dentro do paradigma da convivência com o Semiárido.

  1. Quantas famílias/Assentamentos são beneficiadas no semiárido?

CPT Paraíba – São muitas as famílias assentadas da Reforma Agrária no Semiárido Paraibano, mesmo muitas pessoas entendendo não ser área compatível com a agricultura, camponesas e camponeses produzem seus alimentos e reproduzem suas vidas nesta região, e vem ao longo do tempo, desenvolvendo estratégias próprias de convivência com o Bioma, tendo em vista os tempos de estiagem.

Dos 196 Projetos de Assentamento (nomenclatura do INCRA) no Semiárido da Paraíba acompanhamos diretamente 5 comunidades onde residem 197 famílias, e indiretamente 4 comunidades que beneficia mais 217 famílias. Além das inúmeras famílias camponesas articuladas através de lideranças comunitárias e sindicais nos Fórum do Curimataú e FOLIA – Fórum de Lideranças do Agreste.

  1. Quais ações concretas são desenvolvidas nestas regiões?

CPT Paraíba – Apoio efetivo na ocupações de luta pela terra e proteção dos territórios;

– Formação sobre direitos, políticas públicas, agroecologia;

– Acompanhamento e formação nos processos de construção de cisternas (água de beber e para produção)

– Organização de mutirões,

– Criação de grupos de produção em “agrofloresta” e manejo adequado para criação animal;

– Criação de Bancos de sementes familiar e comunitários.

  1. Quais as maiores dificuldades enfrentadas, hoje, pela organização, em relação ao trabalho desenvolvido nestas regiões?

CPT Paraíba – A não efetivação da Reforma Agrária;

– Investida do capital através da multinacionais mineradoras, das empresas de instalação de parques eólicos, que expulsa cada dia mais camponeses para as periferias das cidades.

– A extinção das políticas públicas (depois do golpe) de estruturação para a convivência com o Semiárido;

– A lógica produtivista que chega aos camponeses e as camponesas através do crédito bancário;

– O estímulo aos monocultivos vegetal e animal;

– As oligarquias políticas que também dominam as terras e não permitem a consolidação da Agricultura Familiar Camponesas e lutam pelo fim dos direitos das populações.

  1. Comparado com outras regiões semiáridas do mundo, onde chove entre 80 a 250mm por ano, o Semiárido brasileiro é o mais chuvoso do planeta. Nele, cai do céu, em média, de 200 a 800mm anuais. Na sua região, as famílias tiveram problemas com a falta de chuva? Quais atitudes tomadas? Até que ponto isso foi positivo e até que ponto foi negativo?

CPT Paraíba – É sempre um problema para o Semiárido a falta de chuvas, neste últimos 6 anos, vivemos a seca mais extensa da história, e claro que as populações tiveram dificuldades em manter a produção, bem como as cidades em acessar água potável.

Mesmo assim vimos que, as famílias beneficiadas com cisternas tiveram a seu favor um reservatório para que fosse abastecido por carros pipa. Diferente de 20 anos atrás quando não existia a política de convivência e a estruturação das comunidades para captação de água (beber e produzir),ou qualquer reservatórios próximos de suas casas,para manter as condições de vida, gerando fome e como consequência os saques e a migração forçada.

Comparando com outras épocas de estiagem prolongada, esta, apesar de considerada a pior seca, não tivemos a mesma taxa de migração. Estas são ações que tem garantido a vida e a autonomia das comunidades camponesas.

Além disso,as famílias que aderiram à produção agroecológica mantiveram sua produção gerando alimento e renda, mesmo que de forma reduzida.

  1. As regiões semiáridas são caracterizadas, de modo geral, pela semiaridez do clima, pela deficiência hídrica com imprevisibilidade das precipitações pluviométricas e pela presença de solos pobres em matéria orgânica. O prolongado período seco anual eleva a temperatura local, caracterizando a aridez sazonal. Conforme essa definição, como é caracterizada a nossa região, Paraíba?

CPT ParaíbaAs características daParaíba semiárida, já estão explicitadas acima,(em vermelho) mas, precisamos fazer um entendimento sobre a elevação das temperaturas, uma coisa é a elevação do semiárido em tempos de estiagem(sazonal) e outra é a elevação da temperatura global que não é definida pelas estiagens sazonais das regiões áridas ou semiáridas e sim a nossa falta de cuidado com a natureza e o uso da diversidade biológica sem ética, mesmo sabendo que é finito, tendemos a usar todos os bens da natureza em favor do acumulo de riquezas para alguns. A estiagem em locais que antes não existia é fruto do aquecimento por exemplo. Isto segundo o Fórum de Mudanças Climáticas.

  1. Na Região Paraibana, é desenvolvido algum trabalho com sementes? Como é desenvolvido esta atividade?

CPT Paraíba – Fazemos (CPT de Campina Grande) efetivamente parte da Rede Sementes da paixão desde 2004, estimulando a criação de bancos de sementes familiares e comunitários a partir da formação nas comunidades.

Acompanhamos 11 bancos de sementes comunitários e podemos afirmar que cada família acompanhada possui seu banco familiar, que é a garantia dos insumos para produção camponesa.

Estamos em um processo de estimular a multiplicação das sementes da paixão para recuperar as perdas dos tempos de estiagem. Estamos também nos preparando para a VII Festa Estadual das Sementes da Paixão.

  1. Que medidas vêm sendo tomadas para mitigar os efeitos da seca na região?

CPT Paraíba- Estimulo aos processos de convivência com o semiárido, busca de uma autonomia hídrica (captação de água de chuva para beber e produzir), energética (biodigestores, fogões ecológicos e etc), que garante a produção de alimento e renda para as famílias no semiárido. Além de uma ampla formação para recuperação e redução das áreas desertificadas.

No caso da CPT-Campina Grande, recebemos inclusive um prêmioda FAO, no programa DrylandChampions – Proteger o Planeta, restaurar as Terra e envolver as Pessoas; pela nossa colaboração no combate a desertificação na Diocese.

 

  1. Com suas palavras, faça um breve resumo sobre a importância do semiárido e sobre as características em relação às áreas atendidas pelas suas organização.

CPT Paraíba – O Semiárido é uma região ampla caraterizada pelo clima predominante na região do Bioma Caatinga, para que não façamos a confusão que vem sendo feita por várias pessoas é necessário fazer a caracterização da região semiárida como espaço maior na Caatinga mas, que também está presente na Mata Atlântica no NE.  Então não se pode falar da importância do clima apenas, ele é variável, mas, se pode falar em relação a importância do Bioma Caatinga, único no mundo e que necessita ser cuidado do mesmo modo que quaisquer outro, mesmo tendo se construído uma ideia preconceituosa de um Bioma pobre em biodiversidade, o que não é verdade, pois a Caatinga abriga 178 espécies de mamíferos, 591 tipos de aves, 177 tipos de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 classes de peixes e 221 espécies de abelhas (Dados do MMA – Ministério do Meio Ambiente, 2016).  São 1.487 espécimes que devem ser cuidadas para o equilíbrio das vidas no planeta.

[1]  Essa questão é bem explanada no Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2017, que propõe como tema “Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”. Saiba mais:  https://goo.gl/JSGr4Y

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