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A Importância dos Sistemas Agroflorestais para preservação do Bioma Amazônia: uma experiência no Maranhão

A Floresta Amazônica é caracterizada por uma imensa diversidade biológica. Está presente em diversos países da América do Sul e é o bioma mais extenso do Brasil. Para se ter uma ideia, 60% das espécies que compõem a fauna brasileira e 10 a 20% das que compõem a flora de todo o planeta estão na Amazônia.

A maior faixa de floresta tropical de mata virgem do mundo divide-se em Floresta de Terra Firme e Floresta Inundáveis. As de terra firme podem ser Floresta Densa, Floresta Aberta de Cipó, Floresta Aberta de Bambú, Floresta Aberta de Babaçual, Floresta Aberta de Encosta, de Campinaramas, Floresta Estacional ou ainda Semidecidual. As Florestas Inundáveis podem ser de Várzea, Floresta de Igapó e Sororoca. [1]

A Amazônia Legal é uma área que abarca 9 estados do Brasil, os quais são: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima e Tocantins, bem como parte dos estados de Mato Grosso e Maranhão e Tocantins. Vale lembrar que 20% do Bioma Cerrado está contido na área que integra a Amazônia Legal.

O desafio do desmatamento ilegal na Amazônia

Mundialmente debatido, a questão do desmatamento na Amazônia é tema nos grandes círculos de decisão sobre políticas socioambientais e razão de muitos alertas recebidos pelo governo brasileiro para intensificar a fiscalização em áreas de interesse de grandes madeireiros e pecuaristas.

O atual modelo de desenvolvimento da agropecuária no Brasil se pauta pela pecuária extensiva e pela monocultura, ambas desenvolvidas sem uma concepção que preze pela importância da preservação de espécies nativas nas áreas de atividade agropecuária.

Nesse sentido, os Sistemas Agroflorestais (SAFs) se apresentam como uma alternativa agroecológica para o desenvolvimento de um setor tão importante para a economia brasileira que não só deve se dar em harmonia com a preservação do bioma amazônico, mas é diretamente impactado pela capacidade de realização de um manejo sustentável para garantia da saúde do solo e de todo o ecossistema que possibilita uma produtividade elevada.

A experiência da Associação Educação e Meio Ambiente (EMA) o Sabiá no Maranhão: a árvore que devolve fertilidade à áreas com solo degradado

Na Amazônia Oriental, no estado do Maranhão, o também conhecido como Sansão-do-Campo, Jamari ou Cebiá, a Mimosa caesalpiniaefolia Benth é uma planta que possui ocorrência em todo o nordeste e vem sendo utilizadas em Sistemas Agroflorestais implantados pela Associação Educação e Meio Ambiente (EMA), uma organização não-governamental que vêm executando contratos de Assistência Técnica e Extensão Rural por meio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

A agrônoma e coordenadora da EMA, Maria Elisabeth Detert, explica como foi que a organização teve essa ideia: “Há muito tempo eu ouvia os agricultores dizerem que iam para “junquira” quando não tinha mais terra boa para plantar. O que eles chamavam de “junquira” eram áreas difíceis de roçar, com muita presença do Sabiá, uma planta espinhenta, mas onde sabiam que iriam encontrar condições de solo adequadas para suas culturas. Foi assim que nós da EMA tivemos a ideia de utilizar o Sabiá em sistemas agroflorestais, ou seja, associando outras culturas à uma espécie arbórea nativa com a intenção de melhorar o solo”.

Maria explica que quando a EMA e seus técnicos começaram a plantar o Sabiá em fileiras os produtores ficaram surpresos: “eles não entenderam o propósito de ocupar espaço de cultivo e desprender esforço para plantar uma espécie que ocorria naturalmente em seus territórios. Sabiam empiricamente que onde ela estava, a possibilidade de encontrar um solo conservado era grande, mas não entendiam o que queríamos produzindo mudas de Sabiá e plantando em fileiras”.

Outro aspecto positivo do Sabiá: a planta, após cerca de 6 anos, fornece uma estaca que possui interesse comercial. Sua madeira é dura e compacta, possuindo superfície brilhante e lisa e tem grande durabilidade mesmo quando exposta à umidade e enterrada, sendo ideal para construção de cercas. Todas essas características tornam o Sabiá uma alternativa viável para abastecer de forma mais segura, eficaz e ecologicamente sustentável um mercado que até aqui tido conseqüências graves no Maranhão, como conflitos territoriais envolvendo mortes e muito desmatamento.

Além disso, as folhas do Sabiá servem de alimentos para pequenos animais, como caprinos, e suas flores ricas em pólen o torna um excelente pasto apícola, otimizando a produção de mel.

Trabalhando deste 2007 com e atuando em 17 assentamentos localizados em 10 municípios (Pirapemas, Monção, Cajarí, Central do Maranhão, Mirinzal, Santa Luzia do Maranhão, Presidente Médici, Maranhãozinho, Brejo, São Raimundo das Mangabeiras), a EMA coleciona depoimentos que expressam a satisfação: “o plantio de arroz nas entre filas de Sabiá duplicou a produção” afirma o agricultor  José Walter Lourenço da Silva do assentamento São José da Vitória, em Pirapemas.

Produção de mudas da espécie nativa do Brasil que recompõe os solos é realizada pela Cooperativa Terra e Vida

A demanda de mudas para plantio de extensas áreas de Sabiá nessas localidades é suprida por meio do trabalho de uma cooperativa, a Terra e Vida, situada em Pirapemas, que possui capacidade para produção de até 400 mil mudas anualmente, e os resultados não poderiam ser melhores.

“A Cooperativa Terra e Vida realiza um trabalho pioneiro ao produzir mudas de uma espécie tida pela maioria da população como de pouca utilidade, um “atrapalho” para as áreas de plantio, o que hoje já sabemos que é um equívoco e as pesquisas devem avançar nesse sentido”.

Assim como na reconhecida experiência em SAF desenvolvida pela EMPRAPA em Tomé Açu [2], colônia de japoneses no Brasil situada no Pará [3], o saber tradicional de pequenos agricultores foi incorporado às práticas e preocupações da EMA e agora está a receber aportes de pesquisa científica que conta com uma equipe multidisciplinar.

A EMA buscou a parceria do Programa de Pós-Graduação em Agroecologia da Universidade Federal do Estado do Maranhão  do Sabiá conquistou interesse científico do exterior. Hoje, em cooperação científica com um grupo de pesquisa na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, no âmbito de uma rede de pesquisa binacional do Fundo de Newton com financiamento do Fundo de Amparo de Pesquisa do Estado do Maranhão (FAPEMA), as amostras de solos coletadas pela equipe de técnicos envolvendo alguns assentados sob a coordenação da EMA são enviadas para serem apreciadas nos laboratórios da universidade inglesa.

“Acreditamos na pesquisa que se inicia por meio do encontro entre o saber dos pequenos produtores com as necessidades elencadas pela Assistência Técnica e Extensão Rural como um elemento muito potente para nos ajudar na intensificação de uma agricultura sustentável no bioma Amazônia, que demanda urgentemente soluções para superar o desmatamento como único meio possível de realização da atividade agropecuária”, pontua Maria Elisabeth Dertet.

[1] https://pt.slideshare.net/ZeneideCordeiro/floresta-amaznica-caractersticas-da-vegetao

[2]https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/3622728/sistemas-agroflorestais-na-amazonia

 [3] http://www.sober.org.br/palestra/12/08O395.pdf

 

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