agosto 26th, 2019 — Geral

SOBRE SER JOVEM: DESAFIOS E PERSPECTIVAS NA ATUALIDADE

 Desde meados dos anos 90 e de forma bastante intensa que o tema juventude vem se tornando alvo de interesse e evidência, seja, nos meios de comunicação, nos movimentos sociais, nos partidos políticos, entidades religiosas ou nos meios acadêmicos, ampliando dessa forma os focos de interesse que existiam anteriormente e colocando novos questionamentos e desafios para a construção de diagnósticos e ferramentas de trabalho que possam auxiliar a quem atua em ações e iniciativas dirigidas aos jovens. Esse interesse se deve tanto pelo reconhecimento da gravidade dos problemas vividos pela juventude e suas implicações, quanto à ação organizada pelos próprios jovens, que colocam na pauta social seus desejos, anseios e potencialidades.

E o que é ser jovem? A juventude é um conceito, é uma construção histórica e social e não somente uma condição etária e parte de um determinado ciclo que compreende a fase entre a infância e a maturidade mesmo com os limites etários não sendo definidos rigidamente uma vez que essa definição etária é controversa. No Brasil segundo o Estatuto da Juventude, é jovem o cidadão com idade entre 15 e 29 anos, para a Organização das Nações Unidas (ONU) a juventude compreende a faixa etária entre 15 e 24 anos existindo nesse meio um debate, principalmente no tocante às políticas públicas, que traça dois momentos do período de vida amplamente denominado juventude; um a adolescência que corresponde à primeira fase tomando como referência o estabelecido pelo ECA, que vai dos 12 aos 17 anos; e o outro momento a juventude propriamente dita.

O relatório La Juventud em Iberoamérica: tendências y urgências, publicado em 2004, organizado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e a Organização Iberoamericana da Juventude (OIJ), diz em seu texto “que é impossível haver uma definição concreta e estável sobre o significado de juventude,” uma vez que existem diversas questões que implicam para que essa definição seja única e global.

Atualmente as questões relativas aos processos e dificuldades de inclusão no mundo social vividos pelos jovens que se encontram num momento de construção dos seus espaços e modos de inserção, formação e preparação para uma vida adulta geram impasses e indagações que refletem no modo como estes estabelecem as relações de socialização com o outro e com o mundo em que vivem. É nessa fase da vida que surgem os dilemas, que se apresentam como desafios e interferem nos seus comportamentos e na maneira de pensar e agir, é nesse contexto que há uma explosão de novos conceitos, e os jovens se deparam com grandes impasses ao buscarem se firmar na sociedade e garantir seus direitos de serem ouvidos e respeitados na busca dos seus sonhos e projetos de vida.

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A juventude e as implicações dessa fase tem se tornado nos últimos anos tema de atenção de estudiosos, pesquisadores e de instituições civis e públicas na tentativa de não somente compreender a relação desses jovens com a família, trabalho, educação como também seu envolvimento com questões sociais e políticas e a partir daí propor alternativas que possam vir a fortalecer os jovens como sujeitos de direito, oferecendo possibilidades nesse período que antecede a vida adulta.

E são milhares, vivem em grupos, temem a violência e o desemprego, tem sonhos e são cada vez mais precoces, mais atuantes e conscientes de seu papel na sociedade. De acordo com os dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, os jovens ocupam, um quarto da população do País, ou seja, são 51,3 milhões de jovens de 15 a 29 anos vivendo, atualmente, no Brasil, sendo 84,8 % nos centros urbanos e 15,2 % no campo. Pessoas com um enorme potencial de desenvolvimento buscando entender seu processo de mudança e precisando ser ouvidas e compreendidas.

No Brasil há uma juventude insatisfeita com o cenário atual, desacreditada dos partidos e da política e em busca de repostas.  Não interessa aos jovens comparar o passado com o presente, eles têm o olhar voltado para o futuro mesmo em meio às incertezas. É essa juventude que em 2013, participou de passeatas contra o aumento das passagens de ônibus e a falta de serviços públicos de qualidade. É essa juventude que compõe um terço do eleitorado brasileiro, ou seja, são mais de 45 milhões de pessoas aptas a serem agentes ativos da transformação do cenário atual precisando que sua voz seja ouvida, necessitando de orientação para trilharem o caminho do bem e da justiça, buscando espaços de diálogo para estabelecer entendimento das necessidades sociais, econômicas e emocionais de que necessitam.

É essa mesma juventude que também é fortemente marcada por desigualdades sociais, onde a chamada “inatividade” juvenil atinge intensamente os jovens principalmente mulheres e negras. Os trabalhos informais são ocupados por jovens de ambos os sexos, jovens de baixa renda e baixa escolaridade, e isso é demasiadamente preocupante. Não à toa as organizações do terceiro setor a cada dia intensificam o olhar para essa parcela da população com o objetivo de atuar nas transformações sociais e têm se destacado cada vez mais com trabalhos onde o foco é voltado para os jovens.

A Rede SoliVida por acreditar que a juventude é a promessa de mudança e buscando dar ouvidos e voz aos jovens, promoveu em 2018 na cidade de Campo Formoso na Bahia um encontro, onde participaram jovens das instituições parceiras da Rede com o intuito de fomentar espaços de diálogo, entendimento e formação crítica desses atores sociais, onde os jovens puderam se expressar e serem ouvidos com a importância que têm no contexto social e político do nosso País.

A juventude não é o futuro. A juventude já é o presente!

Qual é minha luta?” – Uma das perguntas que muitos e muitas dos jovens fizeram no primeiro encontro da Rede SoliVida que convidou  essa  geração para participar, trocar experiências e entrar nos debates. O encontro “Pedras Preciosas – Juventude Participando” foi preparado com o objetivo de motivar a juventude a se engajar nos movimentos sociais e contribuírem ativamente para o enfrentamento dos problemas sociais negligenciados por muitos setores. Ao mesmo tempo esse encontro significativo na história da Rede SoliVida trouxe a oportunidade para todos os parceiros de conhecerem melhor a juventude com os seus desejos, medos, duvidas, visões e ideias.

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Através das organizações parceiras que já têm trabalhos desenvolvidos com jovens de diversas regiões brasileiras e em situações de vida muito diferente, a Rede SoliVida intensificou as ações com o objetivo de fortalecer o empoderamento dos jovens e a construção de uma sociedade mais justa através da valorização da energia, das ideias e capacidades deles. As novas gerações precisam estar preparadas para entender os problemas e os desafios globais e pensar soluções.

O encontro na cidade de Campo Formoso na Bahia ofereceu a oportunidade para troca de conhecimento e experiências entre jovens de situações e realidades de vidas diferentes, como também para as instituições e os possíveis futuros lideres de movimentos sociais, agentes nas politicas e na sociedade civil. Durante a programação do encontro foi apresentado pelos participantes os trabalhos desenvolvidos nas organizações e todos participaram de um debate sobre a conjuntura política atual do País.

Em oficinas especializadas os jovens tiveram a oportunidade de se informar sobre temáticas relevantes à educação, cultura e políticas públicas e aprofundar seus conhecimentos.

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O padre alemão Bernd Hante em sua palestra tratou do tema – Como lidar com os  conflitos. Quais são as pessoas com quem eu gosto de colaborar? Quais são as pessoas ou caraterísticas que dificultam colaboração? E como ainda promover a mediação em diálogo? Pensando na situação atual do país, nos conflitos entre a comunidade, famílias, amigos, sobre atitudes políticas e mais a capacidade de conseguir dialogar, parece uma ferramenta importante para futuros líderes. Na reflexão surgiram resultados como “manter a diplomacia para conseguir ajudar as pessoas que não concordam com a gente e precisam da nossa ajuda” e “assim conseguimos cada vez mais resolver os problemas do nosso País”.

A partir das indagações e reflexões surgidas após a palestra os jovens se questionaram sobre a própria personalidade. Sobre o próprio jeito de atuar em grupos, sobre o estilo de lidar com conflitos e sobre as capacidades que gostariam de desenvolver mais. Segundo o padre o compromisso dos jovens é com o desenvolvimento da própria personalidade com a capacidade de falar e defender os próprios direitos para tomar a responsabilidade de um cidadão.

Os momentos de vivência no Encontro suscitaram em reflexões importantes acerca dos aprendizados adquiridos e de como se pode intensificar a interação e a troca de aprendizados que servirão de base para nortear os próximos trabalhos da Rede de Parceiro.

Nas falas de alguns dos jovens pôde se perceber o quanto foi  significativa a realização desse Encontro, “O Encontro da rede foi ótimo, foi um momento em que jovens de várias organizações se juntaram, trocaram conhecimentos e experiências, com a visão de contribuir para o nosso futuro e de outras gerações” disse Jéssika da Casa Menina Mulher- PE, já para João da Comunidade dos Pequenos Profetas (PE),” O encontro foi uma oportunidade de conhecer mais pessoas que vivem em situações diferentes da nossa. Também foi um momento de bastante aprendizado, as oficinas e a gincana foram os melhores momentos”.

 “ O encontro da Rede foi uma experiência para todos nós, pois aprendemos mais sobre nossos direitos e deveres, como também descobrimos o quanto somos preciosos para nossas organizações, pois as vezes não nos sentimos valorizados e nas nossas instituições sentimos esse valor, amei o encontro da Rede Solivida, acho que deveriam acontecer mais e com um conteúdo voltado ainda mais para nós jovens” disse Elias da Associação Frei Gregório. Da Paraíba.

  “A juventude precisa se empoderar das questões que atualmente estão sendo pautadas para eles/as, pois sem essa participação representativa, a discussão sai um pouco do foco, ou seja, quem melhor pode pautar, falar e apontar para um segmento, que não sejam os próprios jovens? Estamos já atrasados com esta discussão, temos excelentes participações da juventude em outros espaços. Temos que como Rede lançar um olhar para esse público, pois sem formação vão se tornar massa de manipulação para o Capital” explanou Lurdinha da Casa Menina Mulher.

     A Rede SoliVida sabe o valor que tem a juventude, sabe o quanto o trabalhar com os jovens é importante, pois como já dizia Franklin Roosevelt “Nem sempre podemos construir o futuro para nossa juventude, mas podemos construir nossa juventude para o futuro”. Eles, os jovens precisam estar prontos para esse futuro que é próximo, a nossa sociedade precisa saber dar voz e espaço para que eles sejam agentes ativos de transformação, espaço que a Rede SoliVida vem buscando ampliar cada vez mais em suas ações.

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E os resultados do trabalho e especificamente do Encontro já são percebidos; jovens de diversas organizações estão se articulando em discussões, promovendo Fórum de Debates a exemplo dos Jovens do Distrito de Ponta da Serra que organizaram o Fórum da Juventude em 2018, com o apoio do Projeto Verde Vida, os jovens da Ong Nosso Lar de Juazeiro do Norte em ações de combate ao trabalho infantil e exploração sexual, os alunos do Projeto Nova Vida do Crato Ceará em articulações sociais para a comunidade e em Recife no Pernambuco instituições que fazem parte da Rede SoliVida se uniram e criaram a Rede Juvenil de Comunidades Periféricas somando esforços e investindo no Protagonismo Juvenil.  Jovens compreendendo a importância da luta pelos direitos da terra no sertão da Paraíba com trabalhos da Comissão Pastoral da Terra- CPT e muitos outros. São resultados como esses que encorajam a continuar acreditando no amanhã.

O nosso papel social é estimular o debate, as pesquisas e análises. A construção de ferramentas e argumentos, para avançar na consolidação dos jovens como sujeitos de direitos e na formulação de diretrizes que assegurem esses direitos. É preciso intervir para que o cenário político, sociocultural e econômico brasileiro comece a se oxigenar, e para tanto, é necessário que plantemos as sementes e estas estão nos jovens. É preciso olhar com mais atenção para o papel da juventude na sociedade e a importância que têm, para tanto basta atentarmos para a proporção da atual população jovem, suas especificidades e importância qualitativa e quantitativa enquanto grupo social específico. Nas eleições os brasileiros entre 16 e 24 anos formarão um contingente de mais de cinco milhões de eleitores capazes de promover mudanças.  Torna-se fundamental reconhecer a necessidade de um projeto de sociedade inclusivo para os jovens que os considerem como sujeitos com direitos próprios e com condições de participar de forma mais incisiva na sociedade da qual fazem parte.

 

( Texto Esthevão Viana e Edmar Soares)

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